As rochas dobradas da Barra

As rochas podem ser dobradas? Dobradas e amassadas como folhas de papel? Sim! Essa feição dobrada pode ser visualizada numa das áreas mais privilegiadas da cidade de Salvador, na Ponta do Padrão, no Bairro da Barra.

Foi na Ponta do Padrão que desembarcaram Tomé de Souza e comitiva para fundar a cidade-fortaleza de São Salvador. É na Ponta do Padrão que está situado um dos cartões postais da capital baiana: o Farol da Barra, no Forte de Santo Antônio da Barra.

As dobras mais marcantes estão localizadas nas imediações deste Forte.

E como as rochas foram dobradas?








Nesta área ocorreram vários eventos geológicos, mas destacam-se dois principais eventos de deformação, associados com o período Pré-cambriano, quando a configuração dos continentes atuais ainda não existia: (i) o primeiro, ocorrido há cerca de 2,7 bilhões de anos, e (ii) o segundo, cujo ápice ocorreu entre 2,1 e 2,0 bilhões de anos.

O primeiro evento deformacional está relacionado ao período Arqueano (>2,5 Ga). Este metamorfismo/deformação está bem marcado no embasamento cristalino do Cráton do São Francisco, que aflora em diversas regiões do Estado da Bahia. Nesta época a crosta continental não era tão espessa e a tectônica de placas construía e reconstruía esta crosta primitiva. Em toda área hoje exposta na praia da Barra ocorreram deposições, em bacias antigas (Arqueanas), de sedimentos e de rochas ígneas vulcânicas, originadas a partir de derrames de lava ou deposição de cinzas vulcânicas, consequências de explosões. As sequências deposicionais geraram rochas de tom cinza escuro por conta de suas composições e/ou granulometria muito fina. Todo o material desta antiga bacia foi então comprimido, deformado, e transformado em rocha metamórfica há cerca de 2,7-2,6 bilhões de anos.

Há também evidências de que todo o material foi novamente comprimido, sofrendo novo metamorfismo no Paleoproterozóico, entre 2,1 e 2,0 bilhões de anos atrás, resultando hoje em foliações subverticalizadas. Este evento marca o choque entre a arqueo-Bahia, representada pelo Cráton do São Francisco, e a arqueo-África, representada pelo Cráton do Congo. Em algum momento após estes eventos, houve um grande relaxamento das tensões que comprimiam estas rochas. Com isto, abriram-se fraturas diversas por onde penetrou magma que aí solidificou formando veios graníticos, corpos tabulares de coloração rósea a acinzentada, alguns dos quais atualmente encontram-se dobrados. Diques de granitos de aproximadamente 1,9 bilhões de anos afloram em toda a orla oceânica da cidade, especialmente na praia da Paciência e no Jardim de Alah, onde observam-se afloramentos com contexto geológico semelhante.

Estes eventos resultaram nos dobramentos que hoje são visíveis no trecho de praia entre o Farol da Barra e o Hospital Espanhol em períodos de maré baixa. As rochas ígneas e sedimentares dobradas nesta área não estão relacionadas ao evento de Formação do Atlântico. Contudo, elas são testemunhas da resistência ao longo processo de deformação a que foram submetidas durante milhões de anos, sob condições de altíssimas temperaturas e pressões. Assim, processos muito anteriores foram preservados na crosta continental que se movimentou.
A primeira versão do Forte foi construído por Tomé de Souza em 1501, em cumprimento a sua missão de erigir na colônia “uma fortaleza e uma cidade grande e forte”. O Forte foi construído com o objetivo de servir de fortaleza e proteger a entrada da Baía de Todos os Santos das invasões holandesas, sendo considerado o marco da origem da Cidade do Salvador. Em 1534 foi feita a primeira construção em alvenaria (com rochas gnáissicas extraídas do próprio local) e, ao longo de sua história, passou por inúmeras reformas até receber, em 1698, o Farol da Barra, o primeiro registro de um farol marítimo na América do Sul. O atual formato do Forte, em polígono irregular de dez lados, data de 1756. Nos anos seguintes o Forte ganhou um novo farol construído na Inglaterra (1839). Em 1938, o Forte foi tombado pelo IPHAN e abriga o Museu Náutico da Bahia e um centro de informações turísticas.

A geologia, a história e o espetacular por-do-sol no cair da tarde na altura do Morro do Cristo torna este local muito mais encantador.

Ficha turística

  • História da Geologia
  • Didático / Turístico
  • 40 min.
  • Permitido
  • Gratuito
  • Acesso livre
  • Ótima
  • Melhor visibilidade na maré baixa
  • Latitude: 13°0’26”S
    Longitude: 38°31”59”W

Saiba mais...

Souza, J.S. de. 2008. Mapeamento geológico da área do Farol da Barra, Salvador-Bahia, Brasil. Trabalho Final de Graduação. Universidade Federal da Bahia, Instituto de Geociências. 69 p.

Souza J.S. de, 2009. Petrografia e litogeoquímica dos granulitos ortoderivados da cidade de Salvador – Bahia. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Bahia, Instituto de Geociências, 69p.

Souza J.S. de, Barbosa J.S.F., Corrêa-Gomes L.C., 2010. Litogeoquímica dos granulitos ortoderivados da cidade de Salvador, Bahia. Revista Brasileira de Geociências, 40(3): 339-354.