A lagoa e as dunas, um só encanto!

As Lagoas e Dunas do Parque do Abaeté estão inseridas numa APA (Área de Proteção Ambiental) localizada na porção nordeste de Salvador, no bairro de Itapuã, nas imediações do Aeroporto Internacional de Salvador.

Esses são o último manancial urbano do ecossistema de dunas, lagoas e restingas do Brasil. Elas possuem excepcional importância nas questões climáticas porque funciona como uma barreira térmica, absorvendo o sal da atmosfera deixando o ar mais limpo.

Reza uma lenda indígena que a formação da lagoa e dunas do Abaeté envolve o casamento de uma índia. Enquanto ela estava se arrumando para a festa, o seu noivo desapareceu. A índia começou a chorar e foram tantas as suas lágrimas, que deram para formar a lagoa. Com o seu véu de noiva, formaram-se as dunas do Abaeté. E geologicamente, qual é a sua história?

Acredita-se que o campo de dunas e lagoas do Abaeté teve início a cerca de 1,8 Ma, período em que o relevo local era bastante monótono e plano, quase regular. Nesta época, existia apenas um rio principal com seus afluentes que eram estendidos ao longo de vales largos e extensos. Posteriormente, houve uma ligeira mudança nas condições geológicas, provocando oscilações no nível do mar. A ação contínua destas forças por milhares de anos provocou gradualmente um grande rebaixamento no nível do mar e resultou em um recuo da linha de costa. Como consequência, os rios se tornaram mais erosivos e passaram a escavar a planície, levando à deposição, nesses vales rejuvenescidos, de camadas mistas com sedimentos das planícies fluviais anteriores e de materiais erodidos dos morros que se formaram naquele momento. O aumento gradual na aridez climática levou ao ressecamento dos sedimentos arenosos, tornando-os manancial de areia para a formação das dunas. A migração das dunas passou a recobrir o relevo acidentado da região, invadindo os leitos dos rios, represando-os e, em alguns casos, chegando a soterrá-los.

Há cerca de 120 mil anos, a retomada na subida do nível do mar atingiu seu máximo e com isso, gradualmente, o clima tornou-se novamente mais úmido. Esta umidade ajudou a estabilizar as dunas, aumentando a germinação de sementes espalhadas ao acaso nas areias, permitindo o desenvolvimento de vegetação que contribui atualmente para a proteção das dunas contra a erosão. Neste mesmo período, com a maior acumulação de água e menor evaporação, o lençol subterrâneo se encorpou e as nascentes ganharam nova força fazendo ressurgir alguns olhos d’água, nascer novas lagoas, e levando algumas das lagoas pré-existentes a romper as barreiras arenosas e correr na forma de riachos.



As atuais lagoas são, portanto, resultado do represamento natural de antigos rios e não o resultado do acúmulo de água das chuvas nas depressões entre as dunas. A água do Abaeté não é estática, está sempre em circulação embora esta circulação seja bem mais lenta do que a dos riachos vizinhos. O fornecimento de água está ligado às nascentes, herança do rio antepassado, e a uma evasão de água pelos poros das dunas situadas sobre o vale antigo do rio. A água da lagoa está também conectada com a água subterrânea que permeia os sedimentos do antigo rio e das dunas que o recobriram, e assim, indiretamente, se comunica com o oceano.

A APA Lagoas e Dunas do Abaeté criada em 1987, com aproximadamente 1800 ha, representa este ambiente típico de restinga, com lagoas de coloração escura, intercaladas por dunas de areia branca, móveis, semimóveis ou fixas, recobertas por vegetação arbórea, arbustiva e herbácea que desempenha um papel relevante na fixação das dunas e proteção do sedimento contra a erosão.

Em 2008 a área do Parque das Dunas foi declarada de interesse público e a UNIDUNAS – Universidade Livre das Dunas e Restingas do Abaeté passou a ser a mantenedora de uma área de 600 ha dentro da APA. O projeto Parque das Dunas consiste em um complexo ambiental baseado nas diretrizes da sustentabilidade e voltado para a educação, meio ambiente e ecoturismo. O Parque abriga 1300 espécies da flora nativa, sendo 8 delas endêmicas; 200 espécies da fauna nativa e 1 espécie de fauna nativa-endêmica. O Parque das Dunas dispõe de trilhas interpretativas que podem ser executadas com acompanhamento de guias capacitados. Em 2014, o Parque das Dunas foi premiado pela UNESCO como posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Destaca-se no Abaeté as antigas lavadeiras de roupas que até a década de 80 utilizavam as margens da lagoa para os seus ofícios. O local é famoso também pelas manifestações religiosas - como os cultos africanos com festejos e oferendas; e pelas músicas e poemas que inspirou, sendo uma das mais conhecidas a “A lenda do Abaeté” do cantor e compositor Dorival Caymmi - “No Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeda de area branca, ô de areia branca, ô de areia branca. De manhã cedo se uma lavadeira vai lavar roupa no Abaeté vai se benzendo porque diz que ouve, ouve a zoada do batucajé...”

Ficha turística

  • Formações superficiais
  • Didático / Turístico
  • 1 hora
  • Permitido
  • Entrada principal – Gratuito
    Parque das Dunas (UniDunas) - Pago
  • Horário marcado (UniDunas)
  • (71) 3036-1399 / (71) 3374-7721
  • Ótima
  • Evitar visitas noturnas
  • Latitude: 12°56’42”S
    Longitude: 38°21’29”W

Saiba mais...

Avanzo, P.E., 1988. Importância da geologia nos estudos de impacto ambiental: Abaeté, um exemplo. Salvador, Centro Editorial e Didático da UFBA. 53p.

Zuccari, M.L., Quartaroli, C.F.; Bacci, D. de La C., Silva, E.M. da, Hott, M.C., 2006. Atividades e produtos em desenvolvimento no projeto Subsídios para a Gestão dos Recursos Hídricos das Bacias Hidrográficas dos Rios Jaguaribe e Ipitanga no Município do Salvador, BA. (Documentos, 58). Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, 99 p.